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#No Corre de Rubens Oliveira

Uma série com depoimentos de jovens negras e negros de Niterói e São Gonçalo. Trata-se de vídeos diretos, cuja honestidade e intimidade nos ajudam a perceber parte da enorme riqueza humana e criativa que o mercado formal de trabalho desperdiça devido a um racismo estrutural que continua a excluir e discriminar.

#QualPerfil de quem está #NoCorre e não parou simplesmente porque a barreira social do preconceito racial não queria que seguisse em frente? Vamos conhecer um pouco da vida dessa galera cheia de vontade, afeto e criatividade!  


Para começar a contar o seu corre, Rubens Oliveira, 24 anos, questiona o que é verdadeiramente privilégio, ao contar sobre as histórias que ouviu e a que contará. Ocupar o lugar que o homem negro ocupa na sociedade, sem ter enfrentado as mais duras violações da subjetividade, não mostram um caráter privilegiado. Mostram apenas como, dentro de um sistema de práticas diárias de opressão, alguns possuem mais vantagens ou oportunidades, dentro da pirâmide social.

Mobilizado junto à Frente Papa Goiaba em torno das Campanhas #QualPerfil[r+H] recursos Mais Humanos, Rubens colocou sua imagem e sua trajetória como parte da estratégia de sensibilização da sociedade para o enfrentamento do racismo estrutural.

Para ele, estudante de estatística pela ENCE – Escola Nacional de Ciências Estatísticas, o que ele hoje é, e busca, é o que marca sua história. A mobilização e o envolvimento com o trabalho da pesquisa, sua história de formação educacional, marcada por um incentivo de enquadramento no que é socialmente aceito, um acordo tácito com a branquitude pela aceitação, o transformaram no jovem que enfrenta os espaços, com seu conhecimento e seu discurso.

Rubens comenta como a onda conservadora dos últimos anos fortalece um discurso propriamente racista. “O racismo é o mesmo”, ele nos diz, mas agora “abandonando a máscara que usava para se esconder”. “(…) você percebe que muita gente não tem a preocupação com esse discurso, e muitas pessoas negras. Então quer dizer que existe algum mecanismo de formação pra elas não se preocuparem com isso. ” Se as pessoas não negam a existência do racismo, por que vemos parte tão grande da juventude negra sem empregos? A pesquisa “A Incidência do Racismo na Empregabilidade da Juventude Negra” comprova essa questão.

Rubens acrescenta outra reflexão durante sua fala, sobre a forma como os meios de comunicação tratam e discutem o racismo. Taxando uma questão estrutural como mera reprodução dos hábitos da sociedade, a mídia reforça os estereótipos racistas que tanto marcam a vida da população negra no Brasil.

A resistência de certa parte da comunidade acadêmica com a temática do racismo, mesmo sendo ela a produtora de diversos trabalhos sobre o racismo estrutural na sociedade brasileira, também é tema levantado por Rubens durante sua fala. “A faculdade do IBGE, que é o órgão que a gente vai imaginar que vai ter a sensibilidade maior a realidade, por que é ela quem produz as informações. Não tem como a instituição ou representantes da instituição alegarem desconhecimento de alguma coisa ou falta de análise, por que é a própria instituição responsável por supervisionar a análise estatística.” O que recai diretamente na discussão sobre as cotas: “Quando as pessoas pretas começaram a reivindicar alguma coisa, a gente tem até hoje uma porcentagem da população branca que acha que fraudar cota não é errado”. Uma política de reparação para a população negra, que não recebeu garantias do Estado a seu favor e ainda é recriminada quando pleiteia este acesso.

Além do corre acadêmico, Rubens é músico, pianista formado pela Escola de Música Pixinguinha, que fica em São Gonçalo. Ele conta como a música alterou sua percepção do mundo. Muitos se distanciam do que é culturalmente produzido nas favelas, por essa produção constantemente ser associada como algo de pouco valor.

Para finalizar, Rubens é categórico: “Meu corre é a música, é a identidade visual, é estar promovendo, fortalecendo os artistas principalmente. (…) acho isso muito importante, ter consciência de onde seu dinheiro está indo, por que o primeiro empoderamento vem daí. (…) eu acho que é importante pessoas pretas terem uma economia, black money, eu só gasto dinheiro com pessoa preta. Eu reproduzo isso na minha realidade por que é o que eu realmente acredito.”

Assista ao vídeo com a entrevista completa

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