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#No Corre de Marline Alves

Uma série com depoimentos de jovens negras e negros de Niterói e São Gonçalo. Trata-se de vídeos diretos, cuja honestidade e intimidade nos ajudam a perceber parte da enorme riqueza humana e criativa que o mercado formal de trabalho desperdiça devido a um racismo estrutural que continua a excluir e discriminar.

#QualPerfil de quem está #NoCorre e não parou simplesmente porque a barreira social do preconceito racial não queria que seguisse em frente? Vamos conhecer um pouco da vida dessa galera cheia de vontade, afeto e criatividade!  


Marline é mulher, negra,  turismóloga, criadora do #no corre,  tem 25 anos e é de Belford Roxo – Rio de Janeiro. Aos nove anos decidiu o que queria fazer quando adulta e traçou seus objetivos. Vinda de uma família de professores, a estabilidade financeira e o concurso público era algo almejado em sua casa. Sua capacitação profissional começou cedo. Durante um bom período, sua rotina era baseada em curso técnico de manhã, faculdade de turismo a noite e curso de idioma aos finais de semana.

“Eu levava comida fria para comer no Japeri, para tentar  ter um currículo bom. E quando cheguei ao mercado de trabalho, tive muita dificuldade de conseguir até mesmo entrevistas. Pela descrição das vagas já percebia que não me encaixava naqueles perfis, porque está escrito lá discreto. O que seria essa pessoa discreta? Por mais capacitada que estivesse para o cargo, não avançava nos processos seletivos, nunca me encaixei. Acabei tomando outro rumo e realizando trabalhos que não precisavam da minha formação acadêmica. Não era necessário a minha graduação e inglês para pegar bandejas.”

Marline se  culpava por não ser selecionada para as vagas, achava que não tinha feito cursos suficientes, talvez escolhido a área errada, pensava que o turismo estava em decadência. Conversando com outras pessoas que passavam pelas mesmas situações, se deu conta que era uma questão mais profunda.

“Comecei a observar os camelôs,  cada um tem seu marketing diferente. Você começa a arquitetar coisas para sair do sistema. O  ‘No Corre’ veio justamente na forma de observação e diálogo com a realidade que me afligia e encurralava mas também que me deixa ver outras saídas para sobreviver. Minha vontade é dar voz para as pessoas, para que  tenham protagonismo em suas histórias. Que elas se conheçam enquanto sua importância. Você sabe que sua viagem fica mais alegre com aquele amendoim, sua praia com o guarda sol e o mate. E essas pessoas acordam 4h da manhã. Elas são importantes, a voz delas importa.”

No Corre abrange muitos jovens como também pessoas mais velhas que realizam trabalhos informais há muitos anos. Existem vários casos de pessoas que começaram com um corre temporário que acabou virando a principal fonte de renda. Pessoas que construíram casas, compraram terrenos, tudo com trabalho informal. O No Corre de Marline, por exemplo,  abrange um pouco de cada coisa.

“Sou guia de turismo e acredito num turismo fora da caixinha. Onde eu possa mostrar para as pessoas que o Rio de Janeiro  é lindo mas também possa dialogar sobre história e sociedade. Para que as elas tenham um conhecimento fotográfico, turístico e social do Rio.”

Você sabia que, no município de Niterói, no estado do Rio de Janeiro, 32,7% dos jovens entre 15 e 29 anos está desempregado, mais do que na Síria; em guerra civil. Já em São Gonçalo (município vizinho), 34,7% da juventude não tem emprego. Os dados são alarmantes e vão de encontro ao relato de Arthur. Veja a pesquisa “A incidência do racismo da empregabilidade da juventude negra“.

Ao contrário do que muitos pensam, o racismo, tanto na vida quanto no mercado de trabalho aparece mais de forma líquida e disfarçado. Por isso, muitas vezes agressões racistas são vividas e nem ao menos percebidas. Marline contou que certa vez, quando trabalhava como guia turística no Palácio Guanabara (atual sede do governo do Estado do RJ), viveu uma situação em que uma senhora a perguntou se ela tinha conteúdo para fazer a visita guiada. Então, Marline respondeu que estava se formando na faculdade de turismo, fazia matérias extensivas de história da arte e história. Mas que se não fosse capacitada, havia  outros guias para orientá-la.

“As pessoas acham que racismo é alguém apontar o dedo na sua cara e te chamar de negra macaca, fedida. E não é, o racismo é estrutural, ele tá nas sutilezas, nos retratos da sociedade”.

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