#No Corre de Tainara Cardoso

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#No Corre de Tainara Cardoso

Uma série com depoimentos de jovens negras e negros de Niterói e São Gonçalo. Trata-se de vídeos diretos, cuja honestidade e intimidade nos ajudam a perceber parte da enorme riqueza humana e criativa que o mercado formal de trabalho desperdiça devido a um racismo estrutural que continua a excluir e discriminar

#QualPerfil de quem está #NoCorre e não parou simplesmente porque a barreira social do preconceito racial não queria que seguisse em frente? Vamos conhecer um pouco da vida dessa galera cheia de vontade, afeto e criatividade!  


Tainara Cardoso, 25 anos, é psicóloga, formada pela Universidade Federal Fluminense. Depois de alguns anos trabalhando para instituições de saúde e lidando com o racismo dentro do mercado de trabalho e também na própria área, montou um consultório próprio em São Gonçalo. Ao se preparar para uma entrevista, Tainara diz que precisava se arrumar de forma mais discreta possível. Não para passar a melhor imagem: o cuidado era para evitar impressões erradas. Preocupações como a cor de batom menos chamativa e roupas que não marcassem o corpo, reforçando um estereótipo, ou se o cabelo alisado passaria uma imagem mais asseada e “limpa” do que o black natural.

Mobilizada junto à Frente Papa Goiaba em torno das Campanhas #QualPerfil[r+H] recursos Mais Humanos, Tainara colocou sua imagem e sua trajetória como parte da estratégia de sensibilização da sociedade para o enfrentamento do racismo estrutural.

“O racismo é estrutural e ele vai estar caminhando comigo, percorrendo todos esses espaços”. Quando conseguiu uma vaga em uma instituição hospitalar, Tainara afirma que precisava dizer aos pacientes diariamente que lugar ocupava no hospital, pois constantemente a confundiam com auxiliar de limpeza, cozinheira…”

O estigma é consequência direta dos 388 anos de modelo econômico escravagista, que designou as atividades domésticas e manuais como limpeza e cozinha à população negra. Com a falta de políticas sociais de integração dessa população após a Lei áurea (1888), estas profissões continuaram a ser desempenhadas pela mesma classe de pessoas, e 130 anos após a abolição, a presença de profissionais negros na área científica ainda causa estranhamento. “Enfermeira era o máximo que me davam, por que eu usava um jaleco”. No consultório, ela também se depara com isso. “Quando as pessoas chegam e eu abro a porta do consultório, elas se espantam por que não imaginavam que era eu [a psicóloga]”.

A jovem gonçalense sempre recebeu incentivo da família (a mãe, dona de casa e o pai, pedreiro) para investir em si, e acreditar no próprio potencial. “Toda a renda lá de casa era voltada pros meus estudos. Minha família sempre apresentou o estudo, pra mim, como uma possibilidade.” A psicóloga considera que a educação formal faz toda a diferença na formação de uma nova geração de meninas e meninos negros e considera a importância de se elaborar uma nova lógica social, racializada, que torne negras e negros cada vez mais autônomos e independentes de instituições que os oprimem: “Através dessa via – de formação das nossas crianças, dos nossos adolescentes… da população negra em si – a gente pode estar ultrapassando barreiras, simplesmente por que a gente pode”.

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