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Militantes negros na ditadura militar

Por Carolina Oliveira(*)

Em abril se completam 55 anos de um dos períodos mais nefastos da história recente do Brasil, a Ditadura Militar. Nesse período tivemos a democracia sobreposta por uma ditadura civil-militar, que durou de 1º de abril de 1964 a 1985. Houve muitas formas de se opor ao autoritarismo dos golpistas, que tinham do seu lado as grandes corporações midiáticas e a toalidade da televisão. Desde o trabalho comunitário e a educação popular no campo e nas pareiferias, até a resistência armada. Em todas essas frentes o povo negro estava presente. Nesse artigo vamos relembrar alguns militantes negros que lutaram na resistência armada ao regimem ditatorial e cairam nessa luta.

Osvaldão, o invencível

Uma das figuras mais notórias na Guerrilha do Araguaia foi Osvaldo Orlando da Costa, também conhecido como Osvaldão.
Osvaldo Orlando da Costa/Osvaldão

A Guerrilha do Araguaia foi um dos movimentos revolucionáriosda época, que ocorreu na região do Rio Araguaia, no final da década de 1960 e início da década de 1970, e teve como um dos seus principais líderes Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão. Antes de se tornar um dos mais importantes símbolos da resistência no Araguaia, Osvaldão, foi campeão de boxe pelo Botafogo, e também estudou engenharia na então Tchecoslováquia. Durante o período que lutou no Araguaia, Osvaldo se tornou uma espécie de mito para a população local, tanto pelas as suas ações aguerridas, pelo seu avantajado porte físico quanto pela fácil adaptação a região. Os boatos sobre as “habilidades” de Osvaldão, iam desde que ele poderia se transformar em pedra, a de que ele seria invencível. Todos esses motivos, foram serviram para alimentar a lenda de Osvaldão no lugar, e isso causava irritação nos militares, pois não estavam lutando contra um simples guerrilheiro, mas contra alguém que tinha apoio e admiração da população local. E como todos os integrantes da Guerrilha do Araguaia,  Osvaldão teve um fim trágico pelas mãos dos militares, tendo seu corpo exibido pelos seus algozes em um helicóptero que sobrevoou a região para mostrar que o guerreiro invencível tinha sido morto.

Helenira, guerreira do Araguaia

Helenira era estudante, aderiu à luta armada e foi uma das pessoas que perdeu sua vida no Araguaia.
Helenira Resende

Outra militante morta durante a Guerrilha do Araguaia foi Helenira Resende de Souza Nazareth. Helenira era uma estudante que aderiu à luta armada, e foi uma das pessoas que perdeu sua vida no Araguaia. Sua história com os militares tem início quando durante uma movimentação para um protesto acaba sendo presa, e posteriormente é transferida para o Dops.  No Dops, Helenira foi torturada, ela se manteve fiel à causa e aos seus companheiros e não delatou ninguém. E foi no Dops que Helenira conheceu e despertou o ódio temido delegado Sérgio Fleury, conhecido por integrar o esquadrão da morte nos anos de chumbo. Se valendo de um habeas corpus antes do AI 5, Helenira sai da cadeia e passa a viver foragida sob o codinome Fátima, onde acaba indo lutar na Guerrilha do Araguaia.  Após uma emboscada, Helenira foi metralhada nas pernas e capturada e morta pelos militares, e seu corpo nunca apareceu.

Luiz José, o Comandante Crioulo

Luiz José da Cunha, o Comandante Crioulo, da ALN - Ação Libertadora Nacional.
Luiz José da Cunha-Comandante Crioulo, da ALN

Outro destaque no combate ao regime foi Luiz José da Cunha, o Comandante Crioulo, da ALN – Ação Libertadora Nacional. Luiz José foi morto em 1973, durante tortura no DOI CODI. A versão oficial de seu assassinato diz que, ao receber voz de prisão, teria reagido e atirado contra os agentes do DOI/CODI, sendo atingido em seguida e levado para o Pronto Socorro Santa Paula, chegando lá sem vida. De acordo com algumas publicações da Revista Veja, de 1992, Crioulo teria sido denunciado por um infiltrado na ALN, o médico João Henrique Ferreira de Carvalho, que também teria deletado outros 11 integrantes da ALN. O exame necroscópico feito em seu corpo apresentava a letra “T”, como indicação de opositores políticos assassinados. Além da ocultação de seu corpo por parte dos agentes do DOI/CODI, o atestado de óbito informava que sua cor era branca, o que só foi corrigido a pedido do Ministério Público de São Paulo em 2006, 33 anos após seu assassinato.

Marighella, de Vargas aos militares

Carlos Marighella, poeta e político, que enfrentou duas ditaduras, a promovida por Vargas (1930-45).
Carlos Marighella

Carlos Marighella foi um poeta e político, que enfrentou as duas ditaduras vividas pelo Brasil, a promovida por Vargas (1930-45) e a Ditadura Militar (1964-85). Marighella era filho de um imigrante italiano com uma empregada doméstica filha de escravos, nascido na Bahia em 5 de dezembro de 1911. Além da forte oposição feita aos militares, Marighella também foi sofreu com o regime varguista, onde foi preso e torturado. Logo no início do regime militar, Marighella é preso, mas acaba solto após decisão da Justiça, e a partir disso inicia sua luta armada contra os militares. Marighella foi um dos fundadores Ação Libertadora Nacional (ALN), após sair do PCB. As ações de Marighella com a ANL ganharam tiveram muita repercussão na época, o que o levou a ser considerado o principal opositor do regime. Após tanto lutar contra o os militares, Mariguella foi morto em 1969, em uma grande operação chefiada pelo delegado Fleury.

Todas essas pessoas têm mais semelhanças do que a cor de sua pele e a morte violenta que sofreram. Elas tinham famílias, amores e sonhos, mas abriram mão de tudo para se dedicar a algo maior. Helenira, Osvaldo, Luis e Marighella, deram sua vida combatendo um regime corrupto, totalitário e assassino. Essas pessoas foram algumas das muitas vítimas do regime militar brasileiro. Helenira, Osvaldo, Luis e Marighella são heróis e se há algo que mereça ser celebrado no dia de hoje é a memória de pessoas tão corajosas quanto eles. Helenira, Osvaldo, Luis e Marighella foram mortos, mas nunca serão esquecidos.

(*) Carolina Oliveira: formada em História pela UERJ-FFP, estuda racismo e representações no negro na TV e no cinema , e atualmente está atuando como voluntária na ONG Bem TV.

(**) As materias assinadas são da responsabilidade dos autores e não representam necessariamente a opinião da Revista #QP nem definem o foco da campanha #QualPerfil? de enfrentamiento ao racismo estrutural no mercado de trabalho.

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